• Milka Freitas

Sexo com "defeito"?


Olá! Não faço a menor ideia de quem lerá esse blog e menos ainda, quantas pessoas irão ler. Confesso que dá uma preguiça danada pra escrever, mas, ao mesmo tempo, muita vontade de correr pra frente do computador e contar histórias. Não somente minhas, mas das que chegam a mim. Ou quem sabe, de quem convive comigo...

Bom, tem um tempo que estou me interessando sobre o universo das sexualidades de pessoas com "deficiência", isso DEFICIÊNCIA com aspas e de forma duvidosa. Porque, cada vez que convivo com este público ou leio sobre ou algo do tipo, tenho ainda mais receio em dizer que essa galerinha é deficiente. Porque... se partimos da ideia que esse referido público sairia dos padrões ditos para pessoas """normais""" , a deficiência nada mais é , do que a saída desses padrões. Daí, ainda usamos a palavras "LIMITAÇÃO" , e pergunto: quem seria mais limitadx? A pessoa surda ou eu, por exemplo? Bom a resposta exata: EU!! A limitação é minha por não saber falar em libras fluentemente. Até porque, o que mais nos é cobrado, são línguas estrangeiras. Concorda? Para mim, profissionalmente falando, só me sentirei de fato completa, quando meu trabalho acessar essas pessoas da melhor maneira. Até lá, vou aprendendo e errando, mas com o foco na minha inclusão nesse universo.

Você, que está tirando seu precioso tempo para fazer essa leitura, pode até não chegar ao final desse texto, e, arrisco dizer que, você veio atraídx pelo título que fala de sexo. Vai que você ficou curiosx para saber se você estaria nessa categoria de sexo com defeito... bom... Aí já seria outra pauta: O que seria sexo com defeito ?

Estou pesquisando sobre app de relacionamentos para pessoas com deficiência, caramba! São raros e os que temos no Brasil, vejo mais reclamação que elogios. Nos EUA, tem bastante... mas, nem todxs sairão daqui pra lá.


O que me intriga é o olhar de coitadismo dxs preconceituosxs, e eu me incluo (há 5 anos atrás). Imediatamente, as pessoas "perfeitas" olham para uma pessoa surda e diz: "será que faz barulho na hora da transa?" . Vê um cadeirante :"será que o pênis ainda funciona?" Se ver alguém cegx: " eita.... pegar o povo feio e nem sabe" Enfim.... só falam de sexo da pior maneira. Devem pegar suas frustrações e jogar pra outras pessoas. Deixa quieto! São tantas histórias que recebo... que justificariam a palavra "LIMITAÇÃO"..

Continuando....


Tenho uma história real pra contar de uma pessoa que tem uma doença ou condição genética chamada AME - Amiotrofia Muscular Espinhal. Essa pessoa é um homem cis (sexo e gênero masculino), tem 25 anos, é acadêmico, filho único, nunca teve um relacionamento, é cadeirante, só mexe acho que uns 2 ou 3 dedos da mão direita. No mais, depende das pessoas para absolutamente tudo! Nos conhecemos ano passado. Eu havia convidado ele para participar do projeto DIVERSIFLIX de minha autoria e co- autoria da psicóloga Anne Telmira (amiga e sócia), esse projeto é totalmente voltado a Educação em Sexualidade inclusiva, acessível, dinâmica e traz a cultura local e produções audio visuais brasileiras. Pois bem, o convidei para falar sobre como foi sua transição da infância para adolescência e sobre questões relacionadas a sexualidade e seu desenvolvimento. Foi maravilhosa sua participação, trouxe uma outra perspectiva para nosso público diversificado.


No inicio do segundo semestre desse ano, ele me procurou:


- Milka, preciso muito de sua ajuda! Não aguento mais essa excitação, ereção, vontade de fazer sexo e não ter como. Não consigo nem me masturbar. Não aguento mais. Dói e me sufoca. E, ainda acabo passando por situações constrangedoras.

Aquela situação me pegou de surpresa. Nunca havia tido contato com uma demanda tão diferente, pra mim. Na hora pensei: digo o que pra ele. Mesmo já estando num processo de pesquisa e estudos sobre "deficiências". Mas, agora era real. Alguém trazia uma história desafiadora pra mim. Marcamos na faculdade onde estuda e conversamos durante 3h. Ele estava acompanhado de seu fiel amigo e escudeiro, seu pai. No momento que íamos iniciar a conversa, ele pediu para seu pai sair. O pai olha pra nós dois, desconfiado, e sai.

- Milka, o que devo fazer? Tem algum remédio que possa parar isso? Tem algum tratamento?

- Olha, isso é novo pra mim. Respondo bem descabriada. E como ainda não estou formada em Psicologia (sou graduanda trancada, doida pra terminar logo e me livrar desse peso acadêmico. Meta 2019 a 2021), eu não poderia atender outras demandas que poderão surgir. E, além disso, somos amigxs. Mas, posso te indicar 2 pessoas. Confio no trabalho delas. Uma delas é médica, poderia te auxiliar nesta questão sobre medicação, caso, realmente, seja necessário.

- Eita!! Que bacana!! Será que consigo?

- Não sei. Mas, vamos pesquisar.


A partir disso, sugeri que passássemos a nos reunirmos a cada 15 dias, pessoalmente ou via skype.


- Milka, tenho que te contar uma coisa. Mas, fica entre nós! Ninguém sabe, ainda.

Eu fiquei meio sem entender e pensando inúmeras coisas naquele momento. Até que...

- Milka, eu não sou mais virgem!

- Não? Como assim? Quer dizer... quando aconteceu? CONTA TUDOWWWW...

- Foi assim...........................................................................................................(por motivos de privacidade das vidas alheias envolvidas, neste momento, não poderei entrar em mais detalhes, INFELIZMENTEEEE. Mas, garanto que o babado é forte e de muito aprendizado) SORRY!!

- Bom, disse ele, a questão é que outras pessoas não vão querer se relacionar comigo porque sou assim. Eu não tenho mais tanto tempo a perder. ( quando a família dele recebeu o diagnóstico sobre sua patologia, recebeu junto o prognóstico mais "o prazo de validade de sua vida". Digamos que, ele venceu 20 anos a mais do que o esperado. Nem sempre a medicina acerta nesses quesitos. Tem coisas inexplicáveis entre a ciência e o mistério da vida).

Convidei esse amigo para ir a uma festa de pegação. Eu faço uma participação educativa e bem divertida nesse evento, falando sobre as formas e possibilidades de preservativos. Afinal... sou CAMISINHA INFLUENCER !!!! A galera tinha sua idade, seus hormônios... era diferente pra ele... enfim. Ele chamou dois amigos e foi.

Depois que termino minha apresentação...

- EAEEEEEE.... estais curtido a festa?

- MUITOOOOOOOOOOOOOOO (detalhe: temos que aproximar bem os ouvidos para escutá-lo, imaginem numa festa?)

- Que bom migo!!! Então se diverte aí. Vamos comemorar meu niver huhuh

- Pode deixar !! Já tô curtindo.


Migo foi embora quase 4h da manhã. Eu saí era 2h30 exaurida. kkkkk


Depois, ele entrou em contato com as pessoas que indiquei. Mas.... terapia sexual ainda está muito cara para algumas pessoas. Então estamos pesquisando grupos, app, teorias, sites, pessoas... e por aí vai. Porém, o que mais encontramos, é ausência de tudo isso citado acima. São poucas informações e muitos preconceitos. O mais curioso, é o olhar e a fala do coitadismo sobre a possível vida sexual ativa dessas pessoas. Achar que sejam "incapazes" de se relacionar sexualmente. Isso porque? Porque preferem olhar a dita "deficiência" do que SE PERMITIR conhecer que está ali.

Bom.... esse amigo ainda está furando sua bolha e descobrindo novos mundos. Perguntei quem são as pessoas que fazem parte de seu ciclo, ele responde que são não cadeirantes ou não "deficientes".


* Preciso esclarecer essas """ ... a deficiência é muito relativo ao que você entende como "padrão" " normalidade" "diferente" ou até "doença"..... Então, como estou ainda estudando sobre o que significa deficiência, vou colocar assim "deficiência" ou "deficiente" tá?!


Continuando....


Temos muito que trazer o assunto sexo, sexualidade, relacionamentos, educação em sexualidade, masturbação, desejos, tesão, vontades, toques, prevenção, informação, dicas e por aí vai ..... (sem generalizações, cada qual tem sua história) .Temos que nos incluir no universo dessa galera que estão pulsando pela vida. Passam a vida inteira, gerações inteiras, décadas, séculos, todxs tendo que aguentar as informações que só contemplam as pessoas """""""sem deficiência""""""""".

Hoje falei apenas do amigo cadeirante e que tem AME - Amiotrofia Muscular Espinhal. Mas, temos outrxs cadeirantes, pessoas cegas, surdas, autistas, microcefálicxs, "deficiêcia" intelectual ou atraso cognitivo... segue....



(Imagem da internet como referência)



São áreas no mínimo que desperta a curiosidade em saber sobre essa diversidade sexual e de pessoas existente no mundo com suas particularidades que podem nos limitar ou libertar , depende do seu interesse.


Por enquanto... finalizo aqui essa partícula de história desse amigo. Adianto que ele está, dentro das possibilidades atuais, curtindo novos e desafiadores momentos. Tá vivão. ativão e protegido... Até porque tendo como amiga uma CAMISINHA INFLUENCER, jamais deixaria ele sem Prudence. Espero que essa história seja motivadora para você que está lendo se permitir a conhecer de alguma maneira as diferenças. Como diz a Professora Juliana, mulher surda arretada que só ela: "a surdez é minha identidade. A limitação não é nossa. É de vocês que não se permitem conhecer nosso mundo".


Até breve com o decorrer dessa história... e de muitas outras. E se você se identifica com ela de alguma maneira, não esquecendo que cada caso é UM caso.... DESVENDE SEU MUNDO !!!




115 visualizações0 comentário